Já estão ficando cansativas as notícias referentes a prisão do traficante "Nem" da Rocinha. Assunto batido e requentado que vem se alimentando das buscas incansáveis e apreensões diárias de armas e drogas no outrora badalado principal entreposto de venda e consumo de drogas do Estado que desde a madrugada do domingo 13 de novembro foi ocupado pelas Forças de Segurança com vistas à criação da 19ª Unidade de Polícia Pacificadora da cidade.
Que "Nem" era um criminoso procurado, todo mundo sabe. Sua fama ultrapassou os limites das fronteiras brasileiras e sua “periculosidade” e maestria em se esquivar das garras da polícia e da justiça também não era segredo; assim como não era do desconhecimento de ninguém que o maior poderio que garantia a distancia entre o traficante e seus caçadores eram as generosas e polpudas quantias que era obrigado a desembolsar semanalmente para agradar aos setores corruptos da Polícia, em suas mais diversas instancias.
Tão logo assumiu o controle da venda de drogas na favela da Zona Sul carioca, o menino pacato e tímido que apesar de apaixonado por futebol nunca conseguira agradar seus treinadores e professores das diversas escolinhas de futebol pelas quais passou, ganhou logo um apelido curioso e promissor: Mestre
Ao mesmo tempo em que escrevia as páginas mais cruéis da história de sua vida, "Nem" dava aos governantes e dirigentes brasileiros exemplos de apoios e incentivos ao esporte, cultura e ações sociais das mais diversas. Fala-se em investimentos na casa dos R$ 200 mil mensais em gastos com escolinhas de futebol, Torneios esportivos e respectivas infra-instruturas, eventos diversos e muitas das atividades culturais que a comunidade desfrutou nos últimos seis anos. Difícil mensurar as centenas de cestas básicas distribuídas e melhorias de espaços esportivos na localidade... Ele deixou um legado que o estado e a sociedade precisam urgentemente chamar prá si e dar novos modelos gerenciais e continuidade.
São ações, iniciativas e sensibilidades que a priori as intervenções iniciadas e prometidas passam distante. Passam aliás, muito além da visão e interesse da maioria dos governantes.
A chamada “Invasão ou Ocupação Social” oferece carteiras de trabalho, identidade, empregos de nível médio em sua maioria, recupera iluminações, tapa buracos, recapeia asfaltos, oferece benefícios sociais mas de concreto o que fica mesmo são as imagens de um momento singular...único e pontual. Invariavelmente não há manutenção permanente. O Poder Público vai deixar tudo aí implantado e voltar para os gabinetes.
No reinado de "Nem" que de santo, bobo ou bonzinho não tinha nada, valia o olhar para as dificuldades das pessoas e os sonhos quase sempre inatingíveis das crianças e adolescentes principalmente. Ele não financiava Esporte e Cultura propriamente ditos, propiciava lazer e diversão; encontros e conversas; aproximações entre beldades da favela e patricinhas do asfalto, de torcedores e telespectadores com artistas e craques de ponta do meio artístico e esportivo, em momentos raros de igualdade de papéis e deslumbramentos recíprocos e inesquecíveis. Esse era "Nem"... Não, o "Mestre"!
O que preocupa agora é saber quem irá ocupar esse vazio e acalentar sonhos e lembranças. Quem vai pensar que esses milhares de órfãos de protagonismos, precisam urgentemente esquecer de vez a “era Nem” e as ações sociais do tráfico?
Não tem ação governamental que substitua no coração desses meninos e meninas uma figura (para eles) tão “do bem”... Que lhes entendia e atendia nas mais diversas ofertas e demandas pessoais ou coletivas. Alguém que era endeusado em raps de apologias às drogas, armas e sexo, mas também enaltecia a Rocinha como santuário e paraíso. Elevava a auto-estima dos que eram dali, nasceram ali, viviam ali...
Os governantes tratam - e assim deve ser - apenas como um lugar igual aos demais, assim como as pessoas; as benfeitorias e oportunidades... São tudo números, dados e indicadores. Tudo muito quantificado, avaliado e orçado por técnicos e especialistas.
Na boca de fumo, "Nem" orçava tudo de cabeça, aprovava e fazia acontecer. Tráfico não tem contabilidade, registros e nem balancete, mas engana-se quem pensa que o Mestre não buscava o lucro, o crescimento, a hegemonia nos negócios. Investia primeiro, mensurava depois.
A verdade é que o traficante preso não deixou uma fórmula, mas mostrou que é possível... E assim como terá que pagar pelos crimes que cometeu; também nós, a sociedade e governantes seremos condenados; se deixarmos esse desafio de lado ou que "Nem" se torne o Hobin Hood do Século XXI.







